Correspondência familiar
Inicio com essa postagem uma série de transcrições de correspondência selecionada da família. A escolha das cartas será por sua relevância tanto para a história da cidade, da família ou por alguma curiosidade cultural. Serão nomeadas pelo autor e destinatário e data.
Maria Doroteia da Conceição a Catarina Maria de Jesus
18 de agosto de 1914
José Nogueira de Melo acabara de partir para a região de Granito – PE, em fuga da perseguição política que sofria. Sua mãe, Maria Doroteia da Conceição (Sansão), escreve para a irmã Catarina Maria de Jesus, mãe da esposa de José Nogueira de Melo. A carta segue depois para Ana de Jesus Machado, a esposa, que a encaminha para o marido, endossando os conselhos da sogra e tia.
S. Pedro, 18 de agosto de 1914
Catharina, A Deus
Saúde e paz é o que lhe desejo e a todos de nossa família. Vai estas cartas para você enviar para José, mande o mais breve que for possível, porque não acho bom ele comprar terreno lá enquanto não passar este resto de ano, nem vender o que tem aqui. Ontem o Borges recebeu telegrama de José para vender o engenho, porém eu não consenti porque é dar gosto aos inimigos, como também não acho bom ele estar em lugar de mato, deve ir para dentro da rua ou então para Bodocó. Mande dizer a ele que procure a casa de uma pessoa boa para estar enquanto Donaninha vai, pois o sujeito disse a uma pessoa daqui que José fosse para onde fosse ele se vingava sempre e fazia o que tinha vontade. Mais Deus sobre tudo. Acho bom que ele alugue uma casa para passar esses 4 meses com a família enquanto Jesus, Maria e José determine o que há de fazer. Eu só podia conversar tudo com a vista, só não vou porque não acho uma companhia de confiança. Quem tinha disposição de ir mais eu como duas peregrinas era Bárbara [provavelmente sua irmã], mas esta não pode por causa de ter 2 meninas pequenas. Quando tiver notícia de José mande me dizer.
Abençoe por mim a Senhora e Heroína.
Da mana que vive aflita.
Maria Dorothéa da Conceição
Catharina, mande um portador com brevidade deixar estas cartas aonde está José, pois é tempo de se andar (..) é de precisão.
Conceição
E no verso da carta, Donaninha, do alto de seus 26 anos, reforça as palavras das matriarcas com um bilhetinho:
Zé, acho bom este conselho. Não empregue dinheiro em nada agora e mande dizer se é para ir legume da serra para aí que eu quando ficar boa vou lá arrumar alguma coisa. Tudo em paz.
Anna Machado
Senhora era Catarina, nascida em 1910. Junto com Heroína, nascida em 1912, eram as filhas mais velhas do casal. Senhora faleceu na década de 1930 e Heroína faleceu criança pequena, antes de 1920. Na data desta carta, Ana de Jesus Machado estava no sítio Farias e tinha acabado de dar à luz José, em 4 de agosto de 1914. Ele nasceu, conta o relato familiar, nas matas em volta da casa do Farias, em razão da perseguição ao marido. Estava ainda de resguardo. Eis a razão pela qual ela fala em “quando ficar boa” ir à serra [São Pedro] “arrumar alguma coisa” pra enviar pra ele. Essa era a Donaninha.
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